Um tucano que pensa ser águia

A mídia burguesa danou a tratar da popularidade de Sérgio Moro: popularidade por ela construída e alimentada melhor que qualquer bichinho de estimação.

Fosse Sérgio Moro um jacaré, um crocodilo ou um cação, a mídia seria mais cuidadosa nessa empreitada, não fosse ainda ela o boteco dos políticos que ela finge depreciar.

Hoje uma página eletrônica acusou a manchete “aumenta a popularidade de Sérgio Moro e despenca a de políticos”; dito isto como se Moro político não fosse. Uma fanfarra, chuva de mentiras distribuídas a preço de bananas, que hoje estão caras, como se fossem exóticas entre nós. Não dá para ignorar que essa popularidade fabricada pela mídia golpista e burguesa é falsa. Ainda que ela desperte o riso, com o que se prova a missão em entreter e desinformar, confundir, na correria habitual e cotidiana, o consumo de notícias é uma isca para baiacus em águas turvas. Bufei e não li, claro, essa falsa manchete. Exposição não é popularidade. Aliás, o artifício desse bicho alimentado pela mídia é, como já disse o sábio das águas límpidas e transparentes, pirotecnia.

Esse Sérgio Moro é um tucano, já desvendaram, um bicho estranho com voos migratórios para os Estados Unidos, crendo-se pombo-correio. Na verdade um vira-lata útil ao imperialismo, e pensa ser uma águia.

Espírito Perturbado

Desenho de Edson Santos Jr., editado.

Nos últimos dias, a crise social que o Brasil atravessa tem deixado perplexa a consciência das pessoas. Aquilo que se observa no estado do Espírito Santo, governado pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), assim como no estado do Rio de Janeiro, são ícones da radicalização neoliberal, o que parece ser um dos polos em que se concentram as tentativas das elites em retirar o país da crise pelo alto, reforçando a representação política nos moldes da democracia burguesa e a violência contra os fracos, pobres e desvalidos, agora também desempregados.

Os capixabas estão colocando-se questões sobre a função da polícia, em vista da greve da Polícia Militar, sobre a escolha que fizeram durante as eleições para o governo do estado, sobre as “pessoas de bem” que decidiram aproveitar a ausência da polícia para saquear lojas e supermercados, e obviamente sobre como elas precisam reagir diante de uma situação como essa.

As mulheres, sempre as mais vulneráveis à exploração no mundo do trabalho e suas jornadas ampliadas, abandonaram seus lares para ocupar as ruas e protestar contra tantas calamidades. Muito além da atmosfera de profunda insegurança encontra-se a de guerra, com a vergonhosa presença das forças armadas nas ruas contra o povo,  para se manter sabe-se lá que ordem,  dentro de um desgoverno fadado a ser tomado pelo povo na ocasião da falência política da democracia burguesa. A situação comprova a defasagem de uma polícia militarizada justamente quando sua ausência revela as agruras sociais que ela ocultava: a domesticação do povo não é sinônimo de civilidade, mas de barbárie.

As forças armadas tentarão impedir que a consciência do povo vá às últimas consequências, até o covil, e ocupe os palácios em Brasília. Será que os grevistas vão arregar? O espírito do mundo está perturbado.

Mais uma de Michel: mais um Michel 

Ele nunca ligava. Na verdade ele não merecia atenção e talvez soubesse disso. Evitava sentir-se rejeitado. Mas, decididamente, telefonou e depois me mandou uma mensagem de texto pelo celular em que demonstrava interesse em encontrar seu neto,  de quem ele igualmente vivia afastado. Eu perdi a ligação e após ler sua mensagem eu o respondi como devia. Além de não atender, como fazia habitualmente, ainda não respondeu à mensagem enviada. Um caso perdido.

Poucos dias depois ele telefonou para Jocélia, mãe do garoto, queixando-se de não ter “conseguido”_ como se tivesse tentado_ ver a criança e buscando alguém em quem depositar a culpa pelo desencontro, e ameaçou “e ainda por cima chamar-me-ão de mentiroso. Mas ele quererá conhecer o avô, e nisso ninguém poderá impedi-lo. Será quando ele me conhecerá de verdade”. 

Verdade? Verdade era que quem não o conhecia enganava-se por acreditar em seu aspecto de correção, que de fato nele não havia. Alguém que o conhecia, Wanderlei talvez, provavelmente o contou que o menino Rodrigo viria à casa de sua avó, passar com ela a virada de ano e mais alguns dias. Interessado em ver o neto, Michel me ligou.

Ele foi casado por vinte anos com Marcela e agora a detestava de morte: já a havia ameaçado, inclusive, de a matar se possuísse uma arma. Era grave a situação, dramática. Em uma peleja na justiça, por conta de uma dívida que ele arrastava como empregador da própria esposa, que com ele construiu o pequeno negócio, um mercadinho, que ele mesmo tratou de sabotar, apresentou-se com uma de suas irmãs, advogada trabalhista entre aspas, ex-cunhada da vítima contra ela. Um pequeno detalhe: esta ex-cunhada exigiu aos seus filhos que ignorasse a vítima e os filhos dela… Após seu irmão, da advogada, aliciar uma menor de catorze anos de idade, com quem teve uma filha, e os filhos do casamento abandonado terem-no esconjurado. Maçônico e temeroso esse Michel, acrescento.

Os filhos dele nunca lhe cobraram a pensão que tinham direito, aliás ele lançava mão de fazer chantagens sempre que via necessário a esse respeito. Uma vez disse ao filho mais velho ter precisado de um empréstimo de onze mil reais em que o mesmo assinaria junto ao banco como fiador moral, pois era estudante e não tinha renda que fiar nesta transação. Compadecido e solidário, o filho lhe outorgou participar, depois de ter escutado em um tom ameaçador o seu pai dizer que caso ele não aceitasse, nada mais por ele o pai faria. Ele aceitou, mas seu pai não cumpriu com a palavra firmada. Alguém menos refém nestas circunstâncias teria previsto tal descumprimento. O filho com isso começou a ganhar a maturidade que seu pai não tinha, efetivamente, embora aparentando o contrário.

A própria Jocélia viu-se obrigada a descobrir quem era o seu pai. Alguém pior do que todas as queixas destemperadas pela civilidade fazem crer, que a falsa harmonia acolhedora do crime pode afiançar. Um homem potencialmente perigoso, um sociopata misógino.

Suas conversas por telefone eram sempre breves, sobre o tempo, filosofias de vida, julgamentos sobre os costumes e a índole das pessoas. A família de Michel, o pedófilo, seus irmãos e irmãs, acolheram-no sem críticas ou recriminações pelo aliciamento que cometera. O mesmo não foi feito por seus filhos do casamento abandonado, a quem ele se dedicou a tratar com educação e indiferença, articulando nos bastidores de família seus parentes, cúmplices da pedofilia, contra eles.

Neste momento, todos estão vivendo como uma família feliz e educada. Não se sabe como.

A família da menina violentada é feita de gente humilde, com laços clientelistas estabelecidos com chefões do velho coronelismo de uma pequena cidade do interior no extremo sul da Bahia. Dizem que um dos tios da garota exigiu uma moto do pedófilo. A mãe dela deu-se por desesperada,  sem saber o que fazer, mas logo tudo se ajeitou, incrivelmente, sendo o único burburinho a união entre o tiozinho e a novinha, além de como era óbvio esperar que se falasse aos quatro cantos sobre mais um casamento desfeito, mais uma família desmembrada. Desde então, Michel trocou seu antigo partido pelo PSDB e filiou-se à Maçonaria, onde se apresenta nos salões com sua garota, como alguém respeitável. Muitos familiares, talvez por não saberem como proceder, e irmãos da loja maçônica, tecem por ele os mais sinceros elogios e a mais gratuita admiração. Michel diz ter aumentado o seu número de amigos, e assim o diz orgulhosamente. Quem agora ele irá culpar?

Vahia

Ah, sou tanto

tanto quando estou

com você…

Sou bluma leve,

peito intenso,

riso fácil,

verso lento, demorado.

 

Contente, eu faço

dos teus versos

meu terço,

rezo cada espaço,

cada canto, conto

cada instante no

registro de um

desejo, imenso.

 

Tua palavra, teu sofejo

agora é em que

me concentro…

Teus versos

presentes no pescoço

do caminho imaginado

desde o início deste evento.

 

O teu ritmo é vivo,

aberto, respira o humor

do meu suspiro certo.

O teu olhar procura fundo

em mim.

 

Soluços de alegria

entre sorrisos altos

de festejo: leio-te, leio-te, leio-te,

sem parar.

 

De um modo incrível,

tudo nasce, tudo, move-se,

tudo se estende, expande-se

em um momento.

E eu quero sempre mais.

 

Larissa Vahia, apaixonei-me.

Quero escrever contigo.

Prosa ou poesia,

Prosa e poesia, Vahia.

Ignorem a mídia 

A gravidade de uma crise provavelmente leva à radicalização de opiniões no debate público. A ampla crise que se observa no Brasil, com transgressões da lei pelo judiciário e a partidarização de medidas legais, a exemplo da escuta telefônica imprópria e a blindagem de políticos corruptos,  tem na figura do juiz Sérgio Moro um de seus emblemas, mas não o único, olhos às contradições do próprio Supremo Tribunal Federal e a atuação de Janot e Gilmar Mendes.

Curiosamente, a repetitividade das mídias, capitalistas e também das independentes, expõe a militância aberta a que se entregou a comunicação social no país. Esta não é uma observação de mérito, ao que alguém poderia contestar dizendo “como não se posicionar no momento em que estamos?”

Essa repetitividade não tem sido programática, não tem sido mobilizadora como pretende e frequentemente não tem sido sequer ideológica. O mais das vezes ela tem sido mesmo o grito dos desesperados, que de um lado, apoiam a democracia liberal, e de outro, querem “salvar” o neoliberalismo agonizante. De que lado estão as massas trabalhadoras: desconfiadamente, elas observam a movimentação política, saem às ruas, mas sem a segurança de que solucionarão os seus problemas fazendo política – o que é muito preocupante. Senão pela política, como então?

O que temos de mais perigoso neste momento, e as eleições do regime liberal democrático no Brasil nos apontam os casos de Crivella no Rio de Janeiro e Dória em São Paulo, como outros exemplos  recentes, claro, além de D. Tramp nos Estados Unidos e o próprio Michel Temer, é o esvaziamento da política, isto é, a despolitização das questões políticas tornadas simplesmente técnicas, resultando no desprestigio do elemento humano e social em nome da voracidade dos lucros de um regime de livre mercado. Que relação possuem Temer, Crivella, Dória e Tramp, para falar do casos hoje mais citados nas mídias, com os movimentos políticos populares?

Até parece que estamos rezando uma ladainha ao mencionar a palavra desigualdade social, nosso antigo e atual problema, com o qual temos já quase uma relação de estimação, do tipo “não pode vencê-lo, junte-se a ele”. Um escândalo para os mais delicados. Já tem gente desistindo e esperando mais quinhentos anos até a emancipação e justiça social no Brasil.

Em meio àquilo que se tem chamado de debate público, estamos nós.  Nada mais que um falso debate e verdadeiramente uma valiosa falácia, que interessa aos peixes grandes a manterem o estado e a ordem atuais, com alguma estabilidade, claro.

Rapidamente e interessados a tocar seus negócios, empresários espertinhos que não irão adiante sem a transferência de dinheiro público, de bens públicos e do keynesianismo, apoiarão eleições diretas e a candidatura de Lula, hoje a única capaz de unir o país e trazer de volta a desejada estabilidade.

A governabilidade deste país não virá, a curto prazo, através de candidaturas como FHC, Aécio, Marina Silva, ou A Grande Novidade. Simplesmente porque o neoliberalismo demanda o desprestigio da política, como já tem feito através de Temer, Tramp, Dória, Crivella e cia.

Sim, com Lula é diferente. Sim, Lula é mais político que os outros mencionados, e eles sabem disso, especificamente porque Lula não é a cura para todos os males, mas a única liderança nacional organicamente produzida pelo povo, e não meramente pelas mídias.

Têm-se falado que a mídia capitalista está levando o país à convulsão social. Não, o que está levando o país à convulsão é o desgoverno golpista de Temer e sua equipe de gente “profissional e técnica” fingindo não fazer e fazendo a política neoliberal; essa mídia concentra-se em criar as condições de agitação para a estabilização desse processo. A desvalorização do trabalho é estrutural.

Henrique Meireles está blindado? 

Esta semana começou com o boom de notícias sobre a desmoralizante indicação de Alexandre de Moraes, atual ministro da justiça, para o posto no Supremo Tribunal Federal que se encarregará da relatoria da operação Lava Jato, a maior farsa institucional depois do golpe parlamentar planejada para derrubar petistas, difamar o PT e estancar a sangria do PSDB/PMDB. A indicação de Moraes por Temer foi uma questão de tempo, nenhuma surpresa, inicialmente divulgada pela mídia golpista, está exitosamente conseguindo pautar as energias da esquerda com um ministro que já é reconhecidamente uma piada para a opinião pública, assunto de memes junto ao crime organizado no Primeiro Comando da Capital (PCC em São Paulo) e, pasmem, junto a plantações de maconha.

Enquanto isso, e o tempo inteiro, o ponta de lança, o principal atacante do desgoverno golpista, o homem orgânico do capital internacional financeiro, Henrique Meireles, principal articulador do desmonte dos bancos públicos brasileiros e outras maldades contra a classe trabalhadora segue sorrindo, a contemplar tantas desgraças. Por acaso, Henrique Meireles está blindado?

Ainda sobre o ódio 

Todos nós temos acompanhado com estarrecimento e indignação as investidas caluniosas e injuriadas contra a maior liderança popular brasileira, o presidente Lula, como ele é chamado por muitos trabalhadores e trabalhadoras.

Em vista de todo o tipo de perseguição contra ele e sua família, algo que fica evidente observar é que os golpistas não poupam ninguém, nem quem esteja de fora das disputas políticas, como por exemplo os filhos de Lula.

O que foi feito à Marisa Leticia, que tinha a pressão alta e enfrentava acusações escandalosas sem provas fundamentadas, um verdadeiro linchamento público com o apoio da mídia capitalista, não pode ser visto como atos de civilidade. Não ignorem que a Folha de São Paulo fez circular no dia do velório de Marisa, a intimação do juiz Sérgio Moro à Lula.

Entre conduções coercitivas midiáticas,  grampos telefônicos ilegais divulgados à maior audiência caprichosamente preparados contra petistas, precisamos questionar a nossa civilidade,  a boa santa.

Nós sabemos ou somos capazes de intuir que a senhora civilidade é farseira conveniente que poucas vezes está ao lado dos fracos e pobres, serve apenas como azeite antes e depois, inclusive durante, o golpe. A senhora civilidade, a boa santa, é uma hipócrita.

O golpe veio trazer o ataque à classe trabalhadora em nome da sua exploração selvagem, e de quebra destruir o seu partido,  o PT, o mais expressivo e importante atualmente.

Como se não bastasse, tentaram os golpistas, políticos profissionais e civis, não se esqueçam disto, tentaram impedir que Lula chorasse a perda de sua companheira de luta e de vida. Eles não queriam emoções, queriam um Lulinha paz e amor calado. Por que atacam tanto o Lulinha paz e amor? Paz e amor?

Por muito tempo se imaginou uma espécie de amor escuálido, passivo, arrogante, incapaz de fazer frente ao ódio e vencê-lo com bravura. Este tipo de amor não nos irá acrescentar nada agora.

O período que o país atravessa tende a provocar o desespero, a urgência, o que desfavorece a classe trabalhadora, ocupada diariamente a mais produzir que pensar, e os golpistas sabem disso. A desobediência civil,  portanto, necessariamente indispensável aos trabalhadores e trabalhadoras em sua defesa, precisa antecipar-se ao desespero e às piores condições,  o que ela somente fará através de Lula, a sua maior liderança.

O menino Rafael 

O quarto já estava iluminado pelo sol àquele momento, talvez umas nove horas da manhã. Como sempre acontecia,  a criança chamava alguém ao despertar-se para que lhe retirassem do berço, que tinha grades altas e sozinha ela não conseguiria descer. Todas as manhãs era assim: ela acordava e alguém a tomava no colo para que descesse.

Se eu não estiver enganada, era uma terça-feira, e esse ritual obrigatório para nós e conveniente para Rafael foi rompido com um episódio fantástico.

Enquanto eu cozinhava e conversava com Adelma, que gostava de sentar-se ao chão limpo e frio sempre que o dia esquentava,  Rafael dormia no quarto dos pais, com a porta fechada para que o barulho de movimentação pela casa não o acordasse. Se ocorresse de ele demorar muito a se levantar,  o que medíamos eu e Adelma às onze horas, íamos eu ou ela, pessoalmente, acordá-lo. Não é muito bom que uma criança acostume-se a acordar tarde e começar seu dia com o horário do almoço.

Mas Rafael tinha três anos, era compreensível que uma vez ou outra o deixássemos dormir um pouco mais, depois das nove. Estávamos falando e comentando a vida de alguém, quando o menino apareceu-nos enrubescido, suado, talvez devido ao calor que fazia naquele quarto fechadas a janela e a porta,  porque se dormia bem no escurinho silencioso e calmo; com os olhos arregalados,  não parecia que dormia, ou acabava de acordar assim, parecia ter acordado havia tempo, agitado estava, assustado, enfim.

Perguntamo-lhe o que havia acontecido, surpresas eu e Adelma, sem esperar espaço para sua resposta, ele emendou, “acordei com o ruído da porta do banheiro do quarto, abria-se e fechava-se,  aparentemente sozinha,  porque sozinho eu imaginava estar no quarto. Olhei entre as frestas laterais do berço,  e notei algum esforço, não podia ser o vento no quarto_ que vento?_  e notei ainda que meu boneco estava de pé, era ele quem movia a porta! Despertei muito rápido por conta disso, calor não fazia,  mas comecei a sentir um calor tamanho; não acreditei no que meus olhos enxergavam. Fixei o olhar no movimento da porta. O boneco demonstrou ter percebido que havia conseguido minha atenção e pôs-se a olhar por trás da porta que ele abria, desta vez lentamente e fazendo aquele ruído típico, que sozinhos estranhamos se há vento para auxiliar essa coisa.

Vocês não me ouviram chamar? Não, dissemos. Chamei tanto,  e a cada vez que eu chamava correspondia um grau que se avançava na abertura da porta”.

Confesso que eu e Adelma acompanhamos o relato realista, embora fantástico, incrível e improvável, com perplexidade e atenção. Ele nos contou emocionado, como alguém que relata a mais pura verdade.

Mas você desceu do berço sozinho? Perguntei a ele, desta vez eu rompi o silêncio sem esperar por espaço para falar. “Eu pulei”, respondeu. Adelma levou a sério o relato do menino, ela se atem a casos fantásticos,  é bastante católica, conheço-a, curiosamente frequenta centros espíritas cardecistas e acredita em influência de espíritos no mundo dos vivos.

Eu relevei o que o menino contou, achei estranho mas relevei, duvidei que a sua imaginação o tivesse assustado tanto e o provocado a pular do berço. Não sei o que aconteceu.

Poucos dias se passaram para que eu notasse o boneco quebrado,  um Fofão,  que aliás tinha mesmo uma aparência mais assustadora que infantil, e perguntei-lhe: Rafael,  o que aconteceu com o Fofão? “Eu o quebrei, dizem que espíritos malignos escondem-se nele, às vezes com faca, inclusive, e ele, o boneco torna-se capaz de ferir as crianças quando possuído por tais espíritos. Não esperei”. Fiquei sem adjetivos para o menino Rafael.

Marisa Leticia, presente! 

O repouso chegou à dona Marisa Leticia Lula da Silva, mulher de luta e companheira de tantas mulheres trabalhadoras repletas de esperança por um Brasil com justiça social. Dona Marisa, como era conhecida pelos mais próximos, foi mais que primeira-dama do país ao lado do ex-presidente Lula; ela foi o suporte de família assim como são inúmeras brasileiras. Ela enfrentou difíceis situações, as quais não estavam envolvidas apenas sua vida pessoal ou familiar,  mas a imensa responsabilidade por se ter tornado um símbolo para tantas mulheres, símbolo de humildade,  de solidariedade,  de companhia destacada nas trincheiras da luta social do novo movimento sindicalista brasileiro. Ultimamente, enfrentava, sempre ao lado de Lula, as mais desonrosas calúnias e difamações daqueles que de tão mesquinhos nem sequer merecem ser chamados de advogados, juízes, promotores, oposição ou adversários. Igualmente a todas as mulheres aguerridas, Marisa Leticia, estará sempre presente nas memórias e corações de luta. Força, Lula!

Turismo nas praias do nordeste: sonho e propaganda 

Eu caminhava no centro de Foz do Iguaçu, no Paraná, quando escutei alguém falando em alemão atrás de mim. Olhei à minha volta e vi uma diversidade enorme de pessoas, com diferentes traços, cores, maneiras de vestir-se, cabelos, rostos, diferentes tamanhos, origens e histórias.

Quando notei ainda, aliás impossível não notar, um adesivo gigante estampado na vitrina de uma agência de viagens com fotos diferentes de praias do nordeste do país: Porto Seguro, Salvador,  Fortaleza, Recife, Fernando de Noronha. Por motivo das circunstâncias imediatamente aparentes, o mais eu não saberia explicar, pensei: quanto saudosismo!

Ora, caminhando nas ruas de uma cidade de fronteira nacional,  entre tantos gringos e sotaques diferentes, além do mais uma cidade turística, tive um lapso instantâneo de propagandas que provocam o desejo de conquista… Conquista das praias do nordeste.

Senão saudosistas, que então? Consumir o litoral do nordeste não foi o que fizeram os conquistadores europeus? Nada mais oportuno para o turismo histórico que supostamente “reviver o mito das origens” naquela região de entrada da violência contra os indigenas no século XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXI…

Para quem talvez se incomode,  basta entrar, sem choro nem espetáculo, em uma roda de índios dançando para turistas no verão, como estes os querem ver apresentados, com tanguinha, cocá e chucalho na mão. Depois que se acaba o verão,  aqueles índios voltam a lutar por demarcação e posse de terras e a receber balaços em reintegrações de posse violentas, e ameaças,  sob a alcunha de preguiçosos. Perfeita humilhação completa-se quando ainda sambam em sua cara, no carnaval. Lindas praias do nordeste!